Mateus Miranda manda maranhense “olhar os dados”, mas números oficiais desmontam parte do discurso
Influenciador usa pobreza, saneamento, educação e ICMS para atacar a esquerda; Maranhão enfrenta graves problemas sociais, mas Ideb não “despencou” e generalização sobre imposto nos supermercados omite redução do ICMS da cesta básica.

“Você não pode fechar os olhos para os dados do IBGE.” A frase é do influenciador Mateus Miranda, em um vídeo de conteúdo político no qual ele tenta relacionar os graves problemas sociais do Maranhão ao histórico apoio eleitoral do estado a Lula e a candidatos de esquerda.
O Portal Coelho Neto 360 resolveu seguir o conselho dado pelo próprio influenciador: fomos olhar os dados.
E quando os números oficiais entram na conversa, parte do discurso apresentado no vídeo simplesmente não encontra respaldo nos indicadores mais recentes.
O Maranhão tem problemas graves? Tem — e os números comprovam
Não é necessário maquiar a realidade para reconhecer os enormes desafios enfrentados pelo Maranhão.
O estado continua apresentando indicadores socioeconômicos preocupantes. Dados oficiais mostram problemas históricos relacionados à renda, pobreza, infraestrutura e saneamento básico.
O saneamento, particularmente, continua sendo um dos grandes desafios do estado.
Portanto, Mateus Miranda levanta uma discussão legítima quando chama atenção para a pobreza e para a precariedade do saneamento no Maranhão.
Mas reconhecer problemas reais não transforma automaticamente todas as demais afirmações do vídeo em verdade.
“O nosso IDEB despencou”: os números oficiais dizem o contrário
Um dos trechos que mais chama atenção no vídeo é quando Mateus Miranda afirma:
“O nosso IDEB da educação despencou.” – FALSO
O problema é que os dados mais recentes divulgados oficialmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) apontam justamente na direção contrária.
Entre 2023 e 2025, o Ideb do Maranhão passou de 5,4 para 5,7 nos anos iniciais do ensino fundamental; de 4,5 para 4,7 nos anos finais; e de 3,8 para 3,9 no ensino médio.
Segundo o próprio Inep, os resultados de 2025 foram os maiores alcançados pelo Maranhão nas três etapas desde o início da série histórica do Ideb, em 2005.
Isso significa que a educação maranhense está perfeita? Evidentemente que não.
O Maranhão continua enfrentando desafios importantes relacionados à aprendizagem, infraestrutura escolar, desigualdade e permanência dos estudantes.
Mas uma coisa é questionar a qualidade da educação pública. Outra é afirmar que o principal indicador utilizado para medir o desenvolvimento da educação básica “despencou” quando, na realidade, ele subiu.
Se a proposta do vídeo é mandar o eleitor olhar os dados, então é preciso começar apresentando esses dados corretamente.
E os 23% de ICMS “pesando no supermercado”? – EM PARTE
- Mateus Miranda também afirma que o governo “meteu 23% no ICMS para pesar mais no preço dos supermercados”. – FALSO
A alíquota geral do ICMS do Maranhão realmente foi elevada para 23%, com a mudança entrando em vigor em fevereiro de 2025.
Portanto, existe um fato verdadeiro na afirmação.
Mas há uma informação importante que ficou fora do vídeo.
A legislação estadual também estabeleceu alíquota de 8% para produtos da cesta básica.
Assim, apresentar simplesmente os 23% vinculando a alíquota ao preço dos supermercados pode levar o público a entender que todos os produtos básicos adquiridos pelas famílias estão submetidos indistintamente àquela alíquota.
Não estão.
É perfeitamente legítimo criticar o aumento da alíquota geral do ICMS. Mas, novamente, se o argumento é baseado em números, todos os números relevantes precisam aparecer.
Pobreza existe. Mas os dados provam que ela é causada pelo voto na esquerda?
É nesse ponto que o vídeo deixa os indicadores estatísticos e entra claramente no campo da interpretação política.
Mateus relaciona os problemas sociais do Maranhão ao histórico apoio eleitoral do Nordeste a Lula e a candidatos de esquerda.
Essa é uma opinião política que ele tem todo o direito de defender.
Entretanto, os dados do IBGE sobre pobreza não demonstram, por si mesmos, que a causa da pobreza maranhense seja o voto dado a Lula, à esquerda ou a qualquer outro grupo político.
Para estabelecer uma relação dessa natureza seria necessário analisar décadas de administrações municipais, estaduais e federais, além de crescimento econômico, mercado de trabalho, escolarização, infraestrutura, investimentos públicos e privados, distribuição de renda e diversos outros fatores.
Existe ainda outro ponto ignorado pelo argumento.
Estudos do próprio IBGE já demonstraram que programas de transferência de renda possuem impacto mensurável na redução da pobreza e da extrema pobreza.
Isso não significa que programas sociais sejam suficientes para promover desenvolvimento econômico ou substituir políticas de geração de emprego e renda.
Significa apenas que é incorreto transformar um problema complexo e histórico em uma equação simples:
“O Maranhão vota na esquerda, portanto é pobre.”
Os números apresentados no vídeo não demonstram essa relação de causa e efeito.
E já que Mateus falou em saneamento, vamos falar de Coelho Neto?
A discussão sobre saneamento levantada pelo influenciador abre uma questão ainda mais próxima da nossa realidade.
Se a falta de saneamento deve servir para cobrar responsabilidade política — e deve —, essa cobrança não pode parar em Brasília ou no Governo do Maranhão.
É preciso olhar também para as prefeituras e descobrir o que aconteceu com o dinheiro público destinado ao setor.
O Portal Coelho Neto 360 iniciou uma varredura sobre recursos destinados ao saneamento e ao abastecimento de água de Coelho Neto.
E encontramos recursos federais destinados ao município ao longo dos anos.
Entre os instrumentos identificados estão convênios para esgotamento sanitário, sistemas de abastecimento de água e melhorias sanitárias domiciliares.
Um dos casos envolve um convênio de 2006 destinado especificamente à implantação de sistema de esgotamento sanitário, com valor previsto de R$ 250 mil e R$ 200 mil em recursos federais.
Outro instrumento, firmado em 2007, previa R$ 1,5 milhão para sistema de abastecimento de água.
Este último caso chegou ao Tribunal de Contas da União (TCU), envolvendo questionamentos relacionados à execução do objeto.
Portanto, se vamos transformar saneamento em argumento político, existe uma pergunta que precisa ser feita também aqui dentro de casa:
Quanto dinheiro já chegou a Coelho Neto para saneamento e abastecimento de água, quem administrou esses recursos e onde estão hoje as obras que deveriam beneficiar a população?
O Portal Coelho Neto 360 continuará aprofundando essa investigação.
Criticar é legítimo. Distorcer números não pode virar método
Mateus Miranda tem todo o direito de defender a direita, criticar a esquerda, Lula, o Governo do Maranhão ou qualquer outro grupo político.
Da mesma forma, qualquer cidadão tem o direito de concordar ou discordar de suas posições.
Mas quando alguém utiliza números oficiais para dar sustentação a um discurso político, esses
O problema começa quando números oficiais são utilizados como argumento de autoridade e uma informação objetivamente verificável — como o Ideb — é apresentada de maneira incompatível com os dados mais recentes.
O Maranhão possui pobreza, graves deficiências de saneamento e enormes desafios sociais. Esses problemas precisam ser cobrados dos governantes, independentemente do partido.
Mas os fatos também precisam sobreviver à disputa eleitoral.
Mateus encerra sua reflexão perguntando até quando o Nordeste aceitará ser “curral eleitoral”.
O Portal Coelho Neto 360 acrescenta outra pergunta:
Se queremos um eleitor verdadeiramente livre, não deveríamos começar oferecendo a ele todos os dados — inclusive aqueles que contradizem o nosso próprio discurso?



