MERCADINHO DE BAIRRO: contratos chegam a R$ 463 mil e Prefeitura já pagou R$ 160 mil; preços chamam atenção
Após primeira reportagem do Coelho Neto 360 levantar dúvidas sobre a capacidade de fornecimento, novos documentos mostram contratos com Saúde, Assistência e Educação; preços de alguns alimentos ficam muito abaixo das referências encontradas no mercado

Coelho Neto (MA) — A apuração iniciada pelo Portal Coelho Neto 360 sobre a participação da empresa A. E. L. DE SOUSA, conhecida comercialmente como Mercadinho Bom Preço, no Pregão Eletrônico nº 002/2026 ganhou novos capítulos.
Na primeira reportagem, o portal mostrou que documentos apresentados na licitação informavam que a empresa teve faturamento bruto de R$ 216.838,32 durante todo o ano de 2024 e estoque declarado de apenas R$ 29.841,50.
Na ocasião, a principal pergunta levantada por nós era simples: como uma empresa com esse histórico financeiro conseguiria suportar uma operação de fornecimento de centenas de milhares de reais para a Prefeitura?
Agora, novos documentos analisados pelo portal permitem avançar nessa história.
Três contratos somam R$ 463 mil
A Ata de Registro de Preços nº 022/2026 resultou na contratação da A. E. L. DE SOUSA, CNPJ nº 07.306.542/0001-36, por três áreas diferentes da administração municipal.
Foram celebrados o Contrato nº 108/2026, ligado à Educação, no valor de R$ 17.754,00; o Contrato nº 109/2026, do Fundo Municipal de Saúde, no valor de R$ 279.852,50; e o Contrato nº 110/2026, da Assistência Social, no valor de R$ 165.681,25.
Somados, os três contratos chegam exatamente a R$ 463.287,75.
R$ 160.817,01 já aparecem como pagos
O Coelho Neto 360 também avançou sobre a execução financeira desses contratos.
Consulta realizada no Portal da Transparência do Município, considerando o exercício de 2026 e os pagamentos registrados até 14 de setembro, apresenta 16 despesas pagas em favor de A. E. L. DE SOUSA.
O valor total informado pelo próprio Portal da Transparência é de R$ 160.817,01.
Os registros consultados mostram pagamentos relacionados aos três contratos e envolvendo recursos da Saúde, Assistência Social e Educação.
Isso significa que aproximadamente 34,7% dos R$ 463,2 mil contratados já aparecem como efetivamente pagos no período pesquisado.

Em poucos meses, pagamentos equivalem a 74% do faturamento de 2024
Outro dado ajuda a dimensionar o tamanho da operação.
Na documentação apresentada durante a própria licitação, a empresa informou receita bruta de R$ 216.838,32 em todo o ano de 2024.
Os R$ 160.817,01 que já aparecem como pagos pela Prefeitura em 2026 equivalem a aproximadamente 74% de todo aquele faturamento anual declarado.
Essa comparação, isoladamente, não significa irregularidade. Uma empresa pode ampliar vendas, estrutura e capacidade operacional de um ano para outro.
Mas o crescimento do volume contratado e executado reforça a necessidade de transparência sobre como os produtos estão sendo adquiridos, armazenados, transportados e entregues ao Município.
Preços muito abaixo das referências encontradas
Outro ponto chamou a atenção durante a análise dos contratos: os preços registrados para diversos alimentos são consideravelmente inferiores às referências de mercado pesquisadas pelo portal.
Entre os valores contratados estão linguiça calabresa por R$ 5,81 o quilo, linguiça toscana por R$ 6,61 o quilo, peito de frango sem osso por R$ 8,67 o quilo, frango inteiro congelado por R$ 9,35 o quilo e salsicha bovina congelada por R$ 4,75 o quilo.
Há ainda o item descrito como “carne bovina moída 1ª 500g”, cuja planilha utiliza quilograma como unidade e registra R$ 7,31 como preço unitário.
Pesquisas realizadas pelo Coelho Neto 360 em referências disponíveis na internet para o mercado maranhense encontraram valores significativamente superiores para vários desses produtos.
No caso da linguiça calabresa, por exemplo, foi encontrada referência promocional em São Luís de aproximadamente R$ 18,90/kg, contra R$ 5,81/kg no contrato.
Para linguiça toscana, foi encontrada referência de aproximadamente R$ 15,99/kg, enquanto o contrato registra R$ 6,61/kg.
Já o peito de frango aparece no contrato por R$ 8,67/kg, enquanto referência pesquisada em São Luís apontou aproximadamente R$ 16,90/kg.
As comparações não são suficientes, por si mesmas, para afirmar inexequibilidade ou qualquer irregularidade. Compras em grande quantidade podem apresentar preços inferiores aos praticados no varejo, e fatores como marca, fornecedor, condições comerciais e logística influenciam o preço final.
Mas diferenças dessa magnitude levantam uma pergunta legítima: como é possível fornecer os produtos pelos valores registrados, incluindo os custos necessários à execução do contrato?
Contrato inclui despesas de entrega
Esse questionamento ganha importância porque os instrumentos contratuais estabelecem que os preços incluem despesas necessárias à execução, como tributos, encargos, transporte, frete e demais custos relacionados ao fornecimento.
Portanto, não se trata apenas do preço de aquisição da mercadoria. A empresa precisa cumprir as condições previstas para fazer o produto chegar ao Município e atender às solicitações da administração.
E onde estão as notas fiscais?
O Coelho Neto 360 procurou no Portal da Transparência os documentos que permitiriam verificar detalhadamente os produtos correspondentes aos pagamentos realizados.
As notas fiscais não estão disponíveis para consulta pública na página dos pagamentos analisados.
Esse documento é importante porque permitiria verificar quais produtos foram faturados, as respectivas quantidades, valores, datas e demais informações relacionadas às entregas.
Os contratos estabelecem que os pagamentos devem ocorrer mediante apresentação de Nota Fiscal ou Fatura devidamente atestada.
Por isso, o próximo passo da apuração será buscar acesso às notas fiscais, ordens de fornecimento, documentos de liquidação, atestes e comprovantes de recebimento relacionados aos contratos nº 108/2026, 109/2026 e 110/2026.
A pergunta continua — agora com novos números
Na primeira reportagem, o Coelho Neto 360 perguntou como uma empresa que declarou faturamento anual de pouco mais de R$ 216 mil e estoque inferior a R$ 30 mil conseguiria suportar uma contratação pública dessa dimensão.
Agora sabemos que os contratos efetivamente celebrados alcançaram R$ 463.287,75 e que R$ 160.817,01 já aparecem como pagos.
E uma nova questão se soma à anterior: como produtos como linguiça calabresa a R$ 5,81/kg, linguiça toscana a R$ 6,61/kg e peito de frango sem osso a R$ 8,67/kg estão sendo fornecidos, transportados e entregues nos valores estabelecidos?
Responder a essa pergunta exige acompanhar não apenas a licitação, mas principalmente a execução dos contratos.
O Coelho Neto 360 continuará acompanhando os pagamentos e buscando os documentos que comprovam as entregas realizadas.
O espaço permanece aberto para manifestação da Prefeitura Municipal de Coelho Neto e da empresa A. E. L. DE SOUSA.



















